É possível controlar as emoções?

Não existe bem uma resposta fácil a esta questão. Por um lado, as emoções acabam por ser uma reação automática do corpo e da mente a um estímulo externo ou interno. Desta forma, são algo inevitável e, daí, incontrolável. Por outro lado, as pessoas podem desenvolver estratégias que diminuem ou aumentam a resposta emocional. Assim, não há forma de controlar as emoções de uma forma direta; porém, indiretamente, a forma como as pessoas lidam com as mesmas influencia a experiência emocional. Em consulta, muitas pessoas procuram este controlo (por exemplo, “quero controlar a ansiedade”, “quero controlar a raiva”, “quero deixar de estar triste”). Porém, essa tentativa de controlo tende a trazer consequências negativas, principalmente a médio/longo prazo.
Importância das emoções
Todos somos pessoas emocionais e a vertente emocional tão característica dos humanos é o que permite viver a vida de forma mais intensa. As emoções, das mais simples como a alegria às mais complexas como a frustração, ajudam a definir todo o percurso de vida, auxiliando na identificação de necessidades, objetivos e propósitos. Desta forma, quando uma emoção, mesmo que mais desagradável, está presente, é importante identificar as potenciais causas do seu aparecimento (por exemplo, sentir zanga no trabalho pode significar que a pessoa não se identifica com determinados colegas ou com a chefia e sentir tristeza com alguma perda, pode significar o quão importante alguém ou algo era).
Sentir versus inibir
Perante uma experiência emocional mais intensa, as pessoas podem permitir-se a sentir a emoção ou suprimi-la através de diferentes estratégias (por exemplo, fazer algo que as distraia, sair da situação ou fingir que está tudo bem). Apesar de, por vezes, a inibição de determinadas emoções seja ajustada (principalmente quando as pessoas estão em modo “sobrevivência” ou perante um desafio), a supressão geral acaba por estar relacionada negativamente com a saúde mental. Desta forma, as pessoas que tendem a inibir as suas emoções apresentam maior tendência para desenvolver dificuldades psicológicas do que aquelas que tendem a reconhecer e a sentir as suas emoções.
Autorregulação versus controlo
Na psicologia, tende a privilegiar-se o afastamento de conceitos como o controlo emocional. Este controlo é quase uma utopia, dada a tendência para aumentar a intensidade e a frequência das emoções difíceis à medida que as pessoas adotam mais comportamentos de controlo. Assim, em terapia, foca-se na autorregulação das emoções. Esta autorregulação passa por compreender o papel e a função de determinada emoção, reconhecendo obstáculos que funcionam como evitamento e inibição emocional. Apesar de a autorregulação também poder implicar mudanças nas respostas emocionais, não tem como objetivo suprimir aquilo que a pessoa está a sentir.
Apesar de as pessoas adotarem múltiplos comportamentos para controlarem emoções desagradáveis, as emoções surgem com um propósito: a ansiedade pode surgir para mostrar que a pessoa se está a sentir insegura, a raiva para sinalizar os direitos da pessoa ou de outros que podem estar comprometidos, a tristeza para informar que é necessário processar e adaptar a uma perda ou mudança. Desta forma, as emoções são extremamente úteis para garantir a sobrevivência e permitir que as pessoas vivam a vida que lhes faz sentido. No entanto, a sua inibição acaba por poder estar associada a potenciais dificuldades ao nível da saúde mental.
Referências: Unified Protocol for Transdiagnostic Treatment of Emotional Disorders, Relation between emotion regulation and mental health: a meta-analysis review


