Todas as pessoas choram na consulta de psicologia?

Não. Apesar de o chorar poder estar bastante associado às consultas de psicologia e ao processo psicoterapêutico, não deve ser estabelecida uma regra quanto a este aspeto comportamental. Alguns estudos têm demonstrado uma grande tendência para as pessoas acompanhadas em terapia chorarem em algum momento do processo terapêutico. Para além disso, para algumas pessoas é frequente chorar em quase todas as sessões, sendo muitos sentimentos associados a tristeza, frustração e desesperança. No entanto, posteriormente, as pessoas tendem a sentir-se melhor e mais conectadas com o psicólogo. Apesar de ser comum, é relevante mencionar que as pessoas apresentam características muito individuais e expressam as emoções de forma diferente. Desta forma, a interpretação clínica do choro nunca deve ser linear.
Chorar associado a emoções agradáveis
O choro faz parte de muitos processos terapêuticos, pois é neste contexto que se exploram as vulnerabilidades das pessoas. Assim, se o choro for bem acolhido e a pessoa se sentir confortável (dentro do possível) em demonstrar este estado emocional, as pessoas costumam sentir-se mais aliviadas, relaxadas e menos tensas após chorar em consulta. Adicionalmente, pode existir a perceção, por parte das pessoas, do seu choro como um momento genuíno de vulnerabilidade que permitiu comunicar algo que não conseguiam pôr em palavras.
Chorar associado a melhor relação terapêutica
Para além disso, estudos mostram que a relação terapêutica (relação entre a pessoa e o psicólogo) pode melhorar depois de um momento de choro. Estes momentos mais emocionais, que tendem a acontecer em contexto terapêutico, podem acabar por aumentar a conexão entre a pessoa e o psicólogo, dada a partilha de um momento de bastante vulnerabilidade e o acolhimento emocional posterior por parte do psicólogo.
Chorar em sessão não deve ser critério de sucesso
No entanto, apesar da forte associação do choro a progressos em terapia e a uma melhor relação terapêutica, não deve ser um fator exclusivo de avaliação do progresso terapêutico. Existem inúmeras variáveis adicionais que influenciam a manifestação do choro em consulta, dependendo muito das estratégias de regulação emocional de cada pessoa, do contexto em que ela cresceu, da sua personalidade e da sua maneira de ser. Assim, também existem processos terapêuticos em que as pessoas nunca choraram e a pessoa se pode sentir aliviada no fim da consulta e altamente conectada com o psicólogo na mesma. O choro apresenta associações tendencialmente positivas mas as mesmas não devem ser generalizadas.
Apesar de o choro ser bastante comum em terapia, a investigação ainda é relativamente escassa. A verdade é que os estudos apontam para aspetos positivos relacionados com o choro, tendo em conta que pode indicar uma expressão genuína de vulnerabilidade. Apesar de as sessões terem como base as palavras, a demonstração de vulnerabilidade por emoções acaba por ser uma forma de comunicação relevante para a pessoa se sentir segura e confortável com o psicólogo. Porém, a ausência de choro não significa necessariamente que um processo está a correr mal. Nestes casos, é importante identificar se existem variáveis intrapessoais, interpessoais e/ou externas à pessoa que possam estar a influenciar negativamente as consultas, não devendo ser apenas baseadas no facto de a pessoa chorar ou não.


